poeta ERNANI FRAGA
CASARÃO
para Cida Castelar

silenciosa e calma, enorme e branca,
a casa tece paixões plantada no tempo

: quê fazer da casa
com os seus janelões indo para a rua,
a fachada em pedras invadindo a rua
mas estática numa história rôta
com todos os mortos relembrados nela ?

- não é mais de abrir portas,
de sussurros noturnos nas alcovas
nem de grandes festas, decisões
ou muita gente

: não há mais ninguém

ninguém mais espera alguém
nos seus janelões

hoje coabitam a casa
vasos envelhecidos de samambaias tristes,
avencas solitárias e pessoas impossíveis
nos espelhos, com indiferença

: quê dizer da casa se a lembrança
é história fria ?

- e quê dizer depois de tantos anos
daquele general dado a churrascos e a vinho
que não se sabe porque se matou velhinho ?

e daquela mulher severa,
correta e calada que fez do corpo
a vida inútil de uma existência formal ?

e ainda
: quê dizer daquela menina loura
de cabelos cacheados
com olhos em muita luz
que um dia tropeçou no sonho
e enlouqueceu de fantasia ?

: quê dizer agora
se há lá fora os homens da Prefeitura
com um projeto de praça ou de rua ?



VERMELHO

quando, definitivamente,
no lirismo trágico do tempo,
no vento da vida que passa,
afogueado, da cor do sangue,
rubro, rubi e rabisco informe,
eu for ontem e não estiver mais
no teu corpo como num palácio
ou numa sinfonia de Brahms
com a delicadeza estranha
de uma montanha no horizonte
então escreverei
um poema triste, tão triste
quanto os caminhos do homem
na distância das janelas onde,
em memória dos dias findos,
os sonhos bons se apartam
de manhãs muito antigas
feitos tema e sopro inconstantes
de uma sensação de mistério
que, na vida, não deu em nada
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